Os desafios do cristianismo na crise atual

O livro de Julián Carrón, A beleza desarmada, lançado no Brasil em setembro de 2016, traz uma série de reflexões sobre a crise global que vive a humanidade e os desafios do cristianismo nesse cenário.

Padre Carrón é o sacerdote responsável pelo Movimento Comunhão e Libertação desde 2006, eleito para suceder o fundador, D. Luigi Giussani.

Em uma assembleia realizada com membros do Movimento no Brasil, em março desse ano, Julián Carrón discorreu sobre como a fé nos ajuda em situações de tribulação, e como podemos contribuir para transformar esse momento de crise.

Crer em tempo de crise

Uma vez que é uma situação que nenhum de nós desejou, constitui um desafio à nossa fé. Serve para aquilo que vivemos? Adianta o trabalho que fazemos? Pertencer ao Movimento é útil para enfrentar um desafio deste calibre ou é, no fundo, algo inútil? Impressiona-me como o desígnio de Deus nos desconcerta.

Sempre faço uma pergunta simples, banal: quem quisesse mudar o mundo, se vocês decidissem mudar o mundo, por onde começariam? O que fariam? Que iniciativa tomariam? Aposto que quase ninguém faria como Deus fez, porque Deus começou a mudar o mundo escolhendo um homem: Abraão. Mas que realismo de Deus é esse?! Será que não é frágil demais, não está fadado ao fracasso esse método para mudar a realidade?

É por isso que a situação atual desperta ainda mais potentemente a pergunta que Dostoiévski fez há mais de um século: um homem do nosso tempo, com sua capacidade de razão e liberdade, com toda a sua cultura, com todo o seu instrumental intelectual, com tudo o que sabe, pode acreditar ainda, realmente, em Jesus Cristo? Para nós, será que acreditar é uma forma de nos distrairmos um instante realizando gestos de piedade, mas, no fundo, inúteis para enfrentar os desafios da vida? É por isso que uma situação como a que estamos enfrentando agora é um desafio que não diz respeito a algo secundário. Como se pode sair desta situação?

 

A realidade é boa

Repito: o que vivemos, a nossa tentativa de viver a pertença à Igreja numa realidade como o Movimento de Comunhão e Libertação adianta para algo? Uma sugestão, que nos faz refletir, (…) é praticamente o início da Bíblia: vendo a realidade, Deus ficou contente porque ela era boa (vocês veem todos os dias o quanto a realidade, num país como o Brasil, seja boa).

Mas como é que o povo de Israel chegou a esta certeza? Porque, ao povo de Israel, como todos sabemos, não foi poupada nem sequer uma provação! Foi escravo no Egito, depois teve de conquistar a terra prometida lutando, depois se afastou de Deus aceitando pactos com outros povos para sobreviver, até que foi dispersado e mandado para o exílio. Não estamos falando do mundo de Walt Disney! Estamos falando do mundo real, tal qual o povo de Israel o sofreu. Mas justamente quando o povo está no exílio, quando parece que tudo tenha desmoronado definitivamente, foram escritos os textos contidos no início da Bíblia.

Como pode o povo de Israel no exílio dizer que a realidade é boa? Que experiência teve Israel, se nem mesmo no exílio pôde esquecer que a realidade é boa? Porque, se havia uma crise num país, aí é quando era expulso e mandado para outro país! Por que, então, para os judeus no exílio a realidade é boa? São visionários, não são realistas? Nenhum outro povo que vivia ao redor de Israel se comportou assim: para os outros, quando o povo era derrotado, era derrotado também o deus deles, e tudo estava acabado! Era para ter acontecido assim também com o povo de Israel, como tinha acontecido com todos os outros: mandados para o exílio, teriam deixado tudo de lado, porque era o sinal mais patente da derrota do seu deus. Mas não foi assim. Por quê? Eram visionários, eram estranhos, não queriam aceitar a realidade? Não.

O fato é que Israel teve uma experiência tão positiva da relação com seu Deus, que nem mesmo quando a realidade ficou feia (o exílio) pôde deixar para trás o que tinha visto desse Deus; e justo isso permitia ao povo hebreu olhar a realidade de um jeito diferente. Para os outros povos, uma vez que não tinham essa experiência, a realidade ser positiva ou negativa dependia das circunstâncias, de modo que a realidade era dividida em duas partes: a positiva, boa, e a negativa, ruim. Pensavam isso de toda a realidade, e de fato estavam certos de que na origem de tudo havia dois princípios: um bom e um mau. Isto nunca aconteceu em Israel, o único povo em toda a história, em todo o Oriente Médio, onde tinha havido impérios como o babilônico, como o egípcio, como o mesopotâmico. Nenhum desses povos olhou para a realidade como a viu o povo de Israel.

Para explicar isto aos meus alunos, eu sempre dava um exemplo: imaginem ir à Disneylândia, onde há muitas atrações e a possibilidade de se divertir com uma variedade interminável de brinquedos, e ver uma criança que diz ao pai “Olha isso, olha aquilo!”, descobrindo tudo a cada instante, surpresa com a beleza do que acontece. Tudo é positivo, a realidade é bela, é positiva. Imaginem agora que, por um descuido, o menino fique sozinho no meio daquela confusão. Logo muda a percepção que ele tem da realidade. Por quê? Porque está perdido; sozinho, no meio da multidão, é como se já não conseguisse ver bem, como antes, toda a positividade da realidade que tem à frente. Mas, tão logo o menino reencontra os pais, tudo se torna de novo positivo, como no início. Qual é a diferença? A realidade? Não, a realidade é a mesma de antes, a realidade não mudou, mas mudou a forma com que o menino a vê. Quando está tomado pelo medo, quando está tomado pela solidão, quando é tomado pelo desconcerto, chora. Quando reencontra a bela relação com os pais, tudo muda.

Esta é, muito simplesmente, a experiência que o povo de Israel fez: teve uma relação tão poderosa com Deus, teve uma experiência tão bela da relação com Deus que, mesmo quando as coisas pareciam complicar-se, não conseguia mudar o olhar sobre a realidade. E então, quando chega a crise e vai para o exílio, esta se torna uma ocasião para dar-se conta de qual é a experiência que tinha feito com Deus por todo aquele tempo.

Faço questão de dizer que nada foi poupado ao povo de Israel, não é que o povo de Israel tenha vivido sem dificuldades, sem sofrimentos, sem crises, sem desafios para enfrentar. Não, viveu como todos os povos, mas com um vínculo tão forte, que na relação com a realidade não prevalecia a negatividade, nem sequer nas circunstâncias mais dramáticas. Porque aquela relação lhes permitia olhar bem, não ver a realidade só pelo buraco da ferida que tinha. Por isso, uma mulher judia, Hannah Arendt, diz que uma crise é uma ocasião para fazer perguntas a si mesmo, para descobrir qual é a profundidade da realidade.

Assembleia com Pe. Carrón no Brasil em março de 2016

Assembleia com Pe. Carrón no Brasil em março de 2016

Da confusão à razão

Na semana passada eu falava com um grupinho de universitários, e pensava que eles também vivem num mundo em que cada um diz o que quer, as pessoas estão desorientadas; esses garotos estão enfrentando situações em meio à confusão e às vezes estão como que perdidos. E eu pensava: isto é o que viveram também os discípulos. Os discípulos também viviam com Jesus, mas cada um tinha uma opinião diferente sobre Ele. Quando Jesus perguntou: “Quem dizem as pessoas que eu sou?”, responderam: “Uns dizem João Batista; outros, Elias; outros ainda, um dos profetas”.

É a mesma tentação que nós vivemos agora: quem dizem as pessoas que nós somos, vendo-nos enfrentar esta situação de crise? Assistimos à televisão e vemos a cada cabeça uma sentença, e o que nós fazemos? Terminamos na confusão, como todos, porque não sabemos como sair desta situação.

Impressiona-me sempre quando repenso em quando os discípulos estão no momento da crise: Jesus amava tanto os homens que, depois de ter respondido à fome multiplicando os pães, lhes diz: “Mas não se vive somente disto”. E começa a falar do pão da vida: “Se não comerdes da minha carne e não beberdes do meu sangue, não podereis ter a vida”. Então todos começam a dizer: “Mas esse aí é louco! É doido de pedra!”. Então os discípulos se veem diante de toda a avalanche de interpretações e ficam sozinhos com Jesus.

O que vocês teriam feito para evitar que eles também fossem embora? O que teriam pensado em dizer aos discípulos para que não se confundissem como os outros? Pensaríamos em dizer: por que não faz um milagre para fazê-los entender quem Ele é? Mas os discípulos tinham visto milagres para dar e vender! Mais um milagre não teria mudado a situação. Jesus teria de fazer algum efeito especial de Hollywood para fazê-los entender quem era? E se nenhuma dessas coisas nos vêm à mente, nós talvez pensemos que, para ligá-los a si, podia usar uma chantagem afetiva: “Pelo menos vocês não vão embora, não me deixem sozinho!”. Não, Jesus não fez assim, Jesus lhes fez uma pergunta: “Vós também quereis ir embora?”.

Fazendo esta pergunta, Jesus está zombando de seus discípulos? Em meio à crise, ao invés de uma resposta, põe uma pergunta?! Às vezes isto nos desconcerta. Mas Jesus dá a única resposta adequada, porque eles tinham visto os milagres por toda parte. A única coisa de que precisam não são outros milagres ou outros feitos particularmente admiráveis, mas dar-se conta do que viram por tantos dias, semanas, meses com Jesus.

Porque, quando tudo parece uma confusão, alguém dizer “Tu também queres ir embora?” obriga os discípulos a ser homens e a usar a razão. É como se Jesus dissesse: “Pedro, olha para dentro de ti, olha cada fibra de teu ser e dize-me quem eu sou para ti”. Então Pedro, justamente por esta pergunta de Jesus – se não a tivesse feito, Pedro não teria tomado consciência de Quem era –, se dá conta, sai da distração e diz: “Mas aonde vou? Só tu tens palavras com que enfrentar tudo na vida!”. E Pedro começa a olhar bem para tudo o que existe.

 

A realidade é positiva, porque habitada pelo Mistério

Aquilo de que o homem precisa é ser gerado para que, quando chegarem os momentos de dificuldade, não fique perdido, possa continuar a olhar para a realidade sem medo, sem deixar-se tomar do susto pelo que sucederá, e possa continuar a ver a realidade em sua positividade, mesmo na crise! Quantas pessoas vimos crescer em face das dificuldades da vida! Isto quer dizer que não é um fingimento, que é uma realidade esta possibilidade de viver tudo, também as circunstâncias ruins, com uma positividade última.

Então se entende por que Dom Giussani sempre nos ensinou que Cristo não veio para resolver os nossos problemas da vida, mas para despertar a nossa humanidade de forma a podermos enfrentá-los e colocarmos a mão na massa. É nesta situação que podemos verificar a experiência que vivemos, ou seja, se a nossa experiência, se o que vivemos nestes anos seguindo Dom Giussani é só sentimental e devocional, ou se gerou um “eu” capaz de permanecer perante os desafios que temos de enfrentar e capaz de olhar para a realidade em sua positividade. A realidade é positiva por ser habitada pelo Mistério.

Mas isto, amigos, não se dá mecanicamente. Não ocorre simplesmente porque eu o diga ou porque Deus tenha mandado um speech, um discurso a Moisés. O povo de Israel entendeu tudo isto atravessando as dificuldades. Este é o desafio que temos à frente: estamos disponíveis a verificar se o que vivemos é capaz de enfrentar a crise ou não? Porque, de outra forma, nós saímos desta crise feridos de morte na fé, não na crise, mas na fé! Isto é, não teremos esperança para viver e para morrer. Pois podemos ser despojados de tudo, como o povo de Israel, podemos infelizmente perder o trabalho, mas esta é uma ocasião para nos perguntarmos: onde deposito a minha esperança? Que tipo de mudança é preciso trazer ao meu estilo de vida para poder enfrentar a situação? Que mudança deve ocorrer entre nós para sermos solidários com os que atravessam um período de dificuldades? Que amizade é necessária para, em vez de cada um pensar em isolar-se para se defender da crise, nos tornarmos mais amigos pois mais capazes de enfrentá-la juntos?

Porque a tentação de todos, quando chegam os tempos difíceis, é fechar-se, isolar-se para se defender, pensando que, se se isolam defendendo o próprio perímetro, são mais capazes de sair da crise. Nós sabemos, por uma experiência de muitos anos, que o modo de viver a realidade é muito melhor na companhia de Cristo e na companhia cristã. Cada um decida: verifico ou me defendo? Cada um terá de responder à pergunta que Jesus fez a Pedro: “Tu também queres ir embora?”. Mesmo sem ir embora, podemos ficar aqui isolados, ou seja, não aceitando o desafio da verificação da fé.

 

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